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O código que ninguém escreveu

Desenvolver uma nova aplicação está ao alcance de todos. Criar uma governança à altura é o desafio das empresas.
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O código que ninguém escreveu
O código que ninguém escreveu

Foto de Bruce na Unsplash

Abro esse texto com lembranças que terão ares nostálgicos para quem viveu a evolução do desenvolvimento de sistemas. O leitor leigo talvez entenda pouco do primeiro parágrafo, mas como boa parte dessas funções foi substituída pela IA, ele não precisa se preocupar com isso. Ou pelo menos é que muita gente pensa.

Aprendi a programar num tempo em que todo programa começava na linha 10 e andava de dez em dez. 10 PRINT, 20 INPUT, 30 IF X > 0 THEN GOTO 10. O código era uma fila de instruções, e a gente desenhava o fluxograma no papel quadriculado antes de digitar a primeira linha, com losango para decisão e retângulo para processo. Quando o programa crescia, virava o chamávamos de “espaguete de GOTO”, e só quem tinha escrito conseguia seguir o fio.

Depois veio a programação estruturada, com procedures e funções, e usar GOTO virou pecado. E depois a orientação a objetos, que parecia mágica: classe, herança, encapsulamento, polimorfismo. Você não precisava mais saber como o objeto funcionava por dentro. Bastava conhecer a interface e chamar o método.

Cada uma dessas ondas escondeu um pouco mais a complexidade de quem escreve. Só que, em todas elas, alguém ainda escrevia o código e sabia o que ele fazia.

A AI é a última camada de abstração, e a mais radical. A interface agora é a linguagem natural. Quem pede não declara variável, não chama método, não lê uma linha sequer. Descreve o que quer e o programa aparece pronto. A novidade é que qualquer pessoa agora cria e roda código sem saber lê-lo.

Pense no analista de finanças que precisa de um relatório para amanhã. Ele pede ao Copilot, recebe um script em Python, roda no próprio notebook e resolve em dez minutos. Ninguém fez nada errado. Só que ninguém na empresa consegue responder que script é esse, que dado ele leu e para onde mandou.

Quem viveu a era das macros de Excel conhece esse filme. A diferença é que a macro agora é escrita por um modelo, em segundos, e consegue ler um banco de dados, disparar um e-mail ou subir um arquivo para fora da empresa. É a velha macro de Excel com acesso a tudo e sem quase ninguém fixando as melhores práticas.

Marcelo Sato

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Marcelo Sato

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