O cenário atual de Venture Capital em 2026 desafia a estatística do setor. Em geral, General Partners (GPs, os gestores) e Limited Partners (LPs, os investidores) esperam que o fluxo de caixa de retorno comece entre cinco e sete anos após o início de um novo fundo. Ou seja, os fundos da safra 2020/2021 já deveriam estar devolvendo parte do valor construído aos cotistas, sobretudo nos investimentos que foram boas alocações e encontraram janelas de liquidez antes do previsto. O cenário, porém, é o oposto. Segundo a McKinsey, o represamento de liquidez atingiu níveis recordes.
Embora os dados da McKinsey Global Private Markets Report 2026 sejam predominantemente do mercado de buyout, a dinâmica de liquidez também ajuda a explicar parte do que observamos em Venture Capital. E os números são desconfortáveis. As distribuições de private equity caíram para 6% dos ativos sob gestão no período de doze meses encerrado em junho de 2025, ante uma média de 16% entre 2015 e 2019. O DPI (sigla para Distributed to Paid-In Capital, fórmula que descreve os múltiplos realizados pelos investidores) acumulado de cinco anos atingiu o menor nível já registrado, cerca de 10%. Sobre o represamento de saídas, a própria McKinsey estima mais de 16 mil empresas globalmente alocadas na carteira por quatro anos ou mais, 52% do estoque total de buyout, o maior percentual já registrado.
Traduzindo para a realidade do LP: o relatório mostra um TVPI (Total Value to Paid-In Capital, indicador que mostra o valor total gerado por um fundo) que parece bom mas com pouco reflexo de liquidez. É a mesma realidade que vemos entre founders bem-sucedidos. Em algum momento da jornada eles atingem sucesso econômico, criam valor em grandes startups, e, ainda assim, quase 100% desse valor fica concentrado em um único ativo, completamente ilíquido.
O IPO da SpaceX em 2026 é um bom exemplo. O mercado passou a atribuir trilhões de dólares de valor à empresa já no primeiro dia de negociação, mas isso não significou liquidez imediata para os investidores que a financiaram nas rodadas privadas. Enquanto vigora o lock-up, o ganho é essencialmente uma reavaliação de portfólio: melhora o TVPI, mas ainda não devolve capital ao LP.
O erro é imaginar que isso transforma o DPI na única métrica relevante. Não transforma. A tese é outra: pensar em DPI desde o primeiro investimento muda a forma como um gestor escolhe empresas, negocia preço e constrói liquidez. DPI deixa de ser uma métrica de avaliação e passa a ser uma disciplina de decisão.







