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Carta do Gestor: Perspectivas de um investidor de Venture Capital (e ser humano)

“O otimista proclama que vivemos no melhor de todos os mundos, e o pessimista tem medo de que isso seja verdade.” James Branch Cabell
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Carta do Gestor: Perspectivas de um investidor de Venture Capital (e ser humano)
Carta do Gestor: Perspectivas de um investidor de Venture Capital (e ser humano)

A busca pelo equilíbrio entre o meu lado otimista e o pessimista é uma das batalhas que mais me desafiam. No início da minha carreira, sem muita consciência, nutri mais meu lado otimista acreditando que minhas aspirações e a realidade teriam que convergir. E assim, na força bruta, arrastei toda e qualquer barreira no sentido oposto. Percebendo essa preferência, meu lado pessimista relegado às sombras, espertamente se disfarçava de virtuoso, estudioso e científico buscando uma maneira de evitar uma eventual alienação.  

Nesta primeira Carta do Gestor de 2024, gostaria de compartilhar com vocês como tenho navegado e integrado esses dois aspectos da minha personalidade enquanto observamos o cenário do Venture Capital no Brasil este ano. Para "tirar o band-aid", inicio com a perspecitva que alimenta o meu lado pessimista.
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Acompanhando centenas de empreendedores e empresas nos últimos 16 anos, observo que, no Brasil, as startups ainda não alcançaram o mesmo ritmo de crescimento nem têm acesso ao mesmo mercado que suas contrapartes americanas, chinesas ou israelenses. Seja por recursos humanos, financeiros e/ou tamanho de mercado, é crucial reconhecermos esta disparidade, especialmente quando consideramos os preços praticados no mercado nos últimos anos, muitas vezes equiparados aos ecossistemas de VC mais desenvolvidos.
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Observando os ciclos tecnológicos, constato que, no Brasil, ainda há menos maturidade nos padrões de inovação e transformação. Os ciclos tecnológicos se desdobram em camadas de infraestrutura, plataformas, aplicações e transações. A infraestrutura é a base tecnológica, composta por hardware, redes e sistemas operacionais. Sobre essa base, as plataformas fornecem um ambiente para desenvolver e implementar aplicações, que são os produtos finais utilizados pelos usuários, como softwares e aplicativos. Por fim, as transações representam as interações e trocas de dados entre usuários, dispositivos e sistemas, por meio dessas aplicações e plataformas, abrangendo desde transações financeiras até interações sociais. No contexto brasileiro, nosso ecossistema ainda se concentra predominantemente em aplicações e transações, enquanto as infraestruturas e plataformas, mais valiosas, permanecem em estágios menos desenvolvidos.

Percebo também que os fundos de VC estão crescendo em tamanho, o que, embora possa parecer uma vantagem à primeira vista, também traz desafios significativos em termos de retornos. A volatilidade cambial continua a ser um obstáculo para o capital internacional que busca alocação na classe de ativos brasileira. Enquanto isso, no Brasil, os juros ainda representam uma barreira para o capital doméstico, que muitas vezes prefere investir em ativos mais tradicionais e de menor risco.

Por fim, ainda enfrentamos as consequências da ressaca dos valuations dos últimos anos, que "turvam" a visibilidade sobre as oportunidades de investimento e criam uma atmosfera de cautela entre os investidores. Nestes cenários mais adversos, investidores acabam interrompendo seus investimentos em VC, perdendo assim a chance de participar das melhores safras.

Ao mesmo tempo, meu lado otimista constrói uma narrativa diferente. Recordo que em 2000, quando a Endeavor começou a disseminar a cultura empreendedora no Brasil, a palavra "empreendedorismo" sequer constava no Dicionário Aurélio, sendo simplesmente representada por "empresários". Ou seja, há 24 anos, o ecossistema que hoje celebramos estava apenas em gestação. Lembro que em 2008, quando começamos a "startupiar" por aqui, era o mesmo que jogar futebol de várzea com bola de meia, e hoje já estamos nos aventurando rumo à UEFA, com empreendedores de segunda e terceira geração construindo empresas sólidas, ágeis e operando em mercados cada vez maiores.

Me impressiono com a quantidade de founders experientes e de grandes talentos ainda querendo explorar o mundo e a filosofia agile das startups. Também me lembro do tamanho da oportunidade relacionada ao volume de uso de aplicativos de todas as categorias no Brasil (somos o 2º ou 3º maior mercado das principais plataformas globais - vide WhatsApp, Uber, Instagram), à baixa penetração do e-commerce e de SaaS por aqui, os recentes ajuste de preços nos ativos digitais e as perspectivas de AI. Há muito o que se fazer e um grande mercado endereçável.

Meu lado otimista também se alimenta com o fato de que, ao longo dos últimos 12 anos, nossos fundos "Journey" retornaram mais de 40% ao ano, o fundo de 2014 já devolveu 7 vezes o capital investido, nosso melhor investimento já valorizou mais de 72 vezes e a Astella já vendeu mais de 12 empresas. Isso importa porque, em Venture Capital, performance passada é preditivo de performance futura.

Vejo uma atividade pujante no ecossistema no qual uma empresa de tecnologia é vendida a cada dois dias no Brasil e que, embora já existam mais de 100 fundos de Venture Capital por aqui, isso não se compara com a competição entre mais de 7 mil fundos nos EUA, por exemplo. Temos um mercado de capital local com fundos robustos que atuam em diferentes ciclos dos fundos globais.

Como investidor em busca de alfa e de grandes retornos, sei que o equilíbrio está em entender os ciclos, as subidas e descidas, as fases expansivas e contrativas, os limites do otimismo e ponderação do pessimismo, sem perder de vista o processo para assim seguir investindo no que há de melhor no empreendedorismo brasileiro.

“Um bom compositor não imita; ele rouba.” Igor Stravinsky.

Obs.: Grande parte dos princípios do que escrevi aqui foi roubada do Nilton Bonder.

Edson Rigonatti

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Edson Rigonatti

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