Nunca acreditei somente em ideia, mas sim em execução. Sempre pensei assim e trinta anos construindo empresas não me fizeram mudar a conclusão. Pelo contrário, me deram ainda mais convicção sobre ela.
O que traz crescimento e excelência é repetição, erro corrigido e a cicatriz que só aparece depois que você pagou o preço de algo que fez errado.
Por isso, fico muito otimista quando constato que o Brasil tem hoje uma geração de empreendedores de segunda jornada. Temos uma leva de empresas sendo construída por gente que já esteve nas trincheiras antes, aprendeu com os próprios erros e agora está pronta para fazer de novo, em novos mercados e com muito mais experiência acumulada.
O que aprendi na minha trajetória
Fundei a Ciatech em 1996 e ficamos quinze anos sem captar um real de terceiros, crescendo do jeito que a maioria dos empreendedores brasileiros faz, com resiliência, esforço e principalmente a obstinação de fazer sempre o melhor.
Começamos em quatro sócios e terminamos em dois. Essa é a parte que quase ninguém conta, e é a que mais me formou. Uma sociedade não quebra por falta de talento. Quebra por falta de convicção ou por falta de alinhamento, duas coisas bem diferentes. Convicção é acreditar que aquilo vai dar certo antes de existir qualquer prova de que vai. Alinhamento é querer chegar no mesmo lugar depois que a prova aparece. Perdi sócios pelos dois motivos, em momentos diferentes, e cada saída doeu de um jeito.
Em 2000, quando a bolha da internet estourou e levou junto metade das empresas de tecnologia do Brasil, sobrevivemos por um motivo que não foi só mérito. Também foi sorte estrutural: nosso produto ainda rodava em CD-ROM e não dependia de internet. Mas sobreviver teve preço, diminuir o time foi a única decisão possível naquele momento, e não foi decisão de má performance nem de economia e sim de sobrevivência.
Sorte também não se repete. Quando o mundo migrou para online, migramos junto, porque estávamos dentro do problema todo dia e vimos a demanda antes de ela virar tendência em relatório de consultoria. Essa é a vantagem de quem executa: você não precisa prever o futuro se está perto o suficiente do cliente para vê-lo chegando.
Em 2008 um fundo de venture capital estrangeiro se interessou pela Ciatech, e a conversa expôs o que eu não enxergava de dentro: doze anos de crescimento e criação de produtos, e zero de governança. Aprendemos a duras custas que o investidor não quer apenas ter convicção de que a empresa é uma boa oportunidade. Ele quer checar se controles, organização, compliance e a vontade de crescer estão alicerçados em planejamento financeiro estruturado, e se o histórico resiste a uma due diligence de terceiros. Eu executava bem uma coisa e nem tinha começado a executar a outra.
Em 2013 vendi a Ciatech para o UOL, com earnout de quatro anos. Passei de fundador de uma empresa a executivo dentro de um grupo com milhares de pessoas. Aprendi do outro lado da mesa como funciona um M&A visto pelo comprador, quais são as alavancas que o comprador procura e principalmente as dificuldades de incorporar uma adquirida sem sufocá-la dentro de uma grande estrutura.
Quando o earnout terminou, eu saí e, como muitos, tentei um sabático antes de pensar em novas iniciativas. Não aguentei duas semanas. Aluguei um escritório no recém-chegado WeWork da Avenida Paulista para pensar em começar de novo. Poucos meses depois, em julho de 2017, ingressei em minha nova jornada ao lado dos meus novos sócios, Edson e Daniel na Astella.
É essa sequência inteira, e não uma ideia isolada, que forma um founder.
As vantagens da maturidade (e as da primeira jornada)
A geração que vejo hoje chegando na Astella para captar é mais madura, mais eficiente com capital, mais cativante na venda do sonho e mais global do que eu era na idade deles. É uma percepção que se confirma nos pitches que ouvimos todo mês.
Mas maturidade acelerada por mentoria e rede não é a mesma coisa que maturidade forjada em décadas de erro corrigido. A nova geração pratica de forma mais deliberada, com referências que eu não tinha. Apesar da clara vantagem inicial, fica a pergunta se essa aceleração também constrói a resiliência que só vem das decisões mais difíceis e solitárias tomadas ao longo de anos de construção.
Nada disso significa que o founder de primeira jornada esteja em desvantagem. Todo founder de segunda jornada foi de primeira antes, e o que ele carrega hoje foi construído lá, sem manual, sem rede e sem ninguém para dizer o que vinha pela frente. A Ciatech foi a minha primeira jornada. Não tinha mentor, não tinha ecossistema, não tinha quem já tivesse passado por aquilo para me contar. Deu certo assim mesmo.
A diferença da segunda jornada não é qualidade. É velocidade. Você reconhece antes o padrão que já viu, errar menos nas mesmas coisas e chega mais rápido nas perguntas certas. O caminho encurta porque parte do conhecimento já foi adquirido e isso torna a jornada menos tortuosa.
O que me deixa otimista é justamente isso: a primeira jornada é onde a matéria-prima é feita. Quem está nela agora, sem certeza nenhuma, executando no escuro, está construindo exatamente o que vai carregar depois. Não existe atalho para essa parte, e é bom que não exista.
O founder de segunda jornada não é melhor porque é mais velho. É melhor porque já pagou um preço que só se paga fazendo.
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