A lógica do VC é a mesma de um produtor de vinho que não aposta toda a produção em um único ano de colheita

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Todo investidor que considera venture capital faz a mesma pergunta: agora é um bom momento para entrar?
A StepStone analisou 23 anos de safras de venture capital e encontrou um padrão que deveria mudar a forma como qualquer investidor pensa sobre a classe. Dos 23 anos avaliados, 80% de todos os retornos vieram de apenas cinco a sete safras. E 95% dos retornos vieram de seis a dez safras.
Em outras palavras: historicamente, a maior parte do valor criado ficou concentrada em menos de um terço das safras observadas.
Intuitivamente, isso parece um argumento para acertar o timing. É exatamente o oposto.
A implicação prática do estudo é ainda mais relevante, os investidores não sabem quais safras serão as vencedoras até sete a dez anos depois. A safra revela seu valor com uma defasagem de quase uma década. Quando você descobre que uma safra foi excepcional, a janela de entrada já fechou.
É o problema clássico do mercado privado. O retorno extraordinário existe, mas só é visível no retrovisor.
A mitigação estratégica desse padrão tem nome: estratégia multi-safra.
Se você não consegue saber de antemão qual safra será excepcional, e se a maior parte do retorno se concentra em poucas safras imprevisíveis, uma estratégia robusta é construir uma exposição consistente entre safras. Não concentrar capital tentando adivinhar o ano certo. Distribuir a alocação ao longo de safras consecutivas para garantir exposição às safras vencedoras que você não tem como identificar com antecedência.
A Cambridge Associates, que assessora alguns dos maiores investidores institucionais do mundo há mais de cinquenta anos, é direta sobre isso no seu Outlook de 2026. Historicamente, programas com exposição relevante a early stage estiveram entre os segmentos que mais contribuíram para retorno da classe, embora com elevada dispersão entre gestores. Mas o alerta vem em seguida: perder os vencedores da lei de potência resulta num programa de venture que fica abaixo das expectativas.
A recomendação é investir de forma consistente ao longo do espectro de estágios e safras, particularmente quando oportunidades excepcionais existem, justamente para aumentar a probabilidade de capturar os outliers.
Ricardo Kanitz, sócio da Spectra, que atua há anos no mercado secundário brasileiro, costuma traduzir a recomendação para o contexto local de forma prática: planeje em safras de três a quatro anos seguidos, dividindo o cheque anual entre bons gestores e estratégias. Evite all-in numa safra só, porque isso quebra o programa e aumenta o risco de ciclo.
A lógica é a mesma de um produtor de vinho que não aposta toda a produção em um único ano de colheita. Algumas safras serão excepcionais, outras medianas, e você não controla o clima. O que você controla é a decisão de estar presente em cada colheita.
Mas há um segundo fator que fortalece ainda mais a estratégia multi-safra.
Não basta estar na safra certa. Dentro de cada safra, a diferença entre os melhores fundos e os medianos é brutal. Os dados da Carta para o quarto trimestre de 2025 mostram que na safra de 2017 o fundo no topo do decil entregou 4,08 vezes o capital investido, enquanto o fundo na mediana entregou 1,89 vezes. Mesmo dentro da mesma safra, fundos no topo da distribuição entregaram múltiplos substancialmente superiores aos fundos medianos.
A distância entre o topo e a mediana é maior do que a distância entre a mediana e o fundo do quartil inferior. É uma distribuição de cauda longa em todas as safras analisadas.
Isso significa que o investidor em venture capital enfrenta duas camadas de incerteza simultâneas. Primeiro, qual safra será vencedora. Segundo, qual gestor dentro daquela safra capturará os outliers. As duas são difíceis de prever com antecedência. As duas se resolvem com a mesma disciplina: presença consistente e seleção rigorosa de gestores ao longo de múltiplas safras.
No Brasil, essa lógica ganha um contorno adicional. O ambiente macroeconômico mais hostil, com juros estruturalmente altos, inflação volátil e câmbio instável, força as startups brasileiras a serem mais eficientes em capital e mais focadas em receita desde cedo. O Atlantico 2024 Digital Transformation Report documenta o resultado: fundos de VC latino-americanos estão sobre-representados no top 5% de retornos globais da indústria. Na última década, os fundos locais excederam amplamente os retornos de pares globais. O relatório mostra que restrições estruturais podem favorecer modelos mais disciplinados em capital e ampliar a dispersão entre vencedores e o restante do mercado.
Mas o mesmo ecossistema que produz retornos extraordinários os concentra de forma extrema. Em análise própria usando a metodologia do Dealroom Power Law Investor Ranking, aproximadamente dez a quinze gestores detêm posição em mais de 80% das empresas brasileiras que ultrapassaram $100 milhões de receita anual. Apenas 5% de todos os fundos que já investiram no Brasil têm uma dessas empresas no portfólio.
Para o investidor local, a combinação de safras imprevisíveis com concentração extrema de retorno em poucos gestores significa que a estratégia não é escolher o ano certo nem apostar em um único gestor. É construir presença consistente e distribuída ao longo de safras, com seleção rigorosa de gestores que tenham track record comprovado e uma abordagem replicável de acessar o grupo restrito que captura os retornos.
A estratégia multi-safra não é uma forma de reduzir retorno em troca de segurança. É uma das formas mais robustas de aumentar a probabilidade de capturar o retorno assimétrico de uma classe onde o retorno é imprevisível por natureza, concentrado em poucos anos que ninguém identifica de antemão, e ainda mais concentrado em poucos gestores.
Quem tenta acertar a safra perfeita normalmente perde as safras que importam. Quem está presente em todas as safras, com os gestores certos, aumenta significativamente a probabilidade de exposição às poucas que carregam o retorno da classe inteira.
No fim, venture capital premia menos a genialidade do timing e mais a disciplina da consistência. A safra excepcional vai acontecer. Você só não sabe quando. E a única forma de não perdê-la é já estar lá quando ela chegar.