Por que a complexidade do ambiente brasileiro afasta generalistas e cria vantagem para especialistas locais

Foto de John Matychuk na Unsplash
Passei duas semanas na Noruega e uma coisa que me chamou muito a atenção foi estacionamento.
Lá, estacionar funciona assim: você para o carro, informa o check-in num app ou nos totens físicos, vai viver sua vida, informa o check-out, paga. Não tem cancela. Não tem guarita. Não tem carimbo de validação. O sistema presume que você vai informar corretamente o serviço utilizado.
O sistema de trens nacional é igual. Não tem catraca. Você compra o bilhete e entra no vagão. De vez em quando um fiscal passa conferindo. Até a gorjeta segue a mesma lógica: não existe o modelo mental de completar o salário de quem te atende, porque se presume que o salário basta. Eu só tinha visto isso no Japão.
Minha primeira leitura foi a romântica: um país que confia nas pessoas. Aí fiquei pensando melhor, e a leitura fria é mais interessante.
Ninguém paga só porque é o correto. Paga porque burlar não compensa. A multa é pesada, a fiscalização amostral é frequente o suficiente para o risco ser real, e a automação fecha o cerco, com placa lida por câmera, identidade digital única e cobranças que chegam sozinhas e não temos como ignorar. Pode até parecer ingenuidade para quem olha de fora, mas é aritmética. Quando a punição é certeira e cara, verificar todo mundo o tempo todo vira desperdício. A Noruega não removeu o controle. O que ela fez foi trocar a cancela na entrada pela multa inescapável na saída.
O Brasil faz o desenho oposto pelo motivo oposto. A gente verifica antes porque não consegue punir depois. A cancela dupla, a catraca com biometria, o antifraude antes da transação, tudo existe onde a multa não alcança. Num país com informalidade alta e cobrança difícil, a verificação preventiva e universal é a única arquitetura que fecha a conta.
A conclusão óbvia seria lamentar. A minha é outra: essa arquitetura de verificação, construída na marra ao longo de décadas, virou um dos ativos mais valiosos do país. Temos camadas de checagem de identidade que viraram referência mundial. Nosso sistema de pagamento instantâneo com trava antifraude processa abilhões de transações. Construímos um ecossistema de birôs de crédito, conciliadoras, certificadoras, formando uma indústria inteira de compliance, cobrança e recuperação. Cada camada dessas existe porque presumir conformidade nunca foi opção. O resultado é algo que a Noruega, por não precisar, nunca gerou em escala: dado operacional sobre exceção, fraude, inadimplência, comportamento sob desconfiança.
A Noruega desenhou sistemas para o caso em que tudo dá certo. O Brasil foi obrigado a desenhar para todos os casos, inclusive os piores. É mais caro, mais lento e mais irritante de viver. Mas o subproduto é um acervo de conhecimento operacional e dado proprietário que não existe em economia de alta confiança, porque lá o problema nunca precisou ser resolvido.
Escrevi há pouco tempo que a complexidade brasileira, vista pela régua de quem investe em software, é fricção, e vista pela régua do trabalho, é matéria-prima. A viagem me deu a origem dessa matéria-prima. Quando chega uma tecnologia cujo valor está justamente em dominar exceções e aprender com dados de operação, o acervo do país que verifica tudo vale mais do que a elegância do país que verifica por amostragem.
Não estou dizendo qual modelo produz a vida melhor. Estacionar sem cancela é melhor. Estou dizendo onde cada modelo acumulou valor sem perceber. E que, pela primeira vez em muito tempo, o acúmulo involuntário do Brasil parou de ser só custo.