Foto de engin akyurt na Unsplash
Na semana passada escrevi sobre o estacionamento sem cancela da Noruega . A conclusão era que cada país acumula competências diferentes resolvendo problemas diferentes. Fiquei devendo a consequência prática, algo que interessa mais a quem empreende do que a quem investe.
Em resumo, o impacto é que: se o valor de um negócio nasce do contexto institucional que o cercou, transplantar o negócio sem o contexto não funciona. Três casos mostram isso melhor que qualquer teoria.
O primeiro é o birô de crédito. No Brasil, consultar o CPF de alguém antes de vender a prazo é uma consequência do nosso ambiente. O negócio existe porque a inadimplência é estrutural, a renda é informal e o credor sabe muito menos sobre o devedor do que precisaria. Agora tenta transplantar isso para a Noruega. Lá, a declaração de imposto de qualquer cidadão é pública, consultável por qualquer um. A identidade digital é única. A inadimplência é residual. O problema que o birô resolve simplesmente não existe (não no tamanho que lidamos aqui no Brasil, ao menos). Não é que o produto seria pior lá. É que o mercado não existe.
O segundo é o mais mal interpretado da história recente: o WeChat. Virou hype a tese de que o Brasil teria seu super-app de pagamentos, e uma geração de copycats queimou capital tentando. Nenhum escalou. A leitura simplista culpa a execução dos founders, eu prefiro ter uma leitura mais profunda com base na origem do WeChat. O aplicativo virou carteira da China porque o cartão de crédito nunca penetrou lá, porque o app já era o mensageiro universal antes de virar pagamento, e porque o Estado deixou dois players privados, Tencent com o WeChat Pay e Alibaba com o Alipay, construírem a infraestrutura de pagamento. Esse movimento fez com que a China se tornasse um país cashless sem adotar o “dinheiro de plástico” criado pelas economias capitalistas.
No Brasil, as três condições falharam ao mesmo tempo:
- o cartão parcelado já era hábito enraizado,
- o mensageiro universal já existia, o WhatsApp, e dava pouca prioridade à ideia de explorar meios de pagamento, e
- fizemos o movimento inverso da China: construímos o Pix, nossa infraestrutura pública e gratuita.
O copycat não falhou por má execução, mas porque copiou o produto sem as condições de necessidade e de apoio institucional do modelo chinês .
O terceiro é o M-Pesa, no Quênia, que transforma qualquer celular simples em carteira desde 2007, sem internet, rodando em mensagem de texto na rede GSM. Resolveu a ausência total de infraestrutura bancária num país onde agência e cartão nunca chegaram. E aqui o detalhe interessante: o próprio M-Pesa nunca conseguiu se transplantar, mesmo para economias adjacentes. As tentativas na Índia e na África do Sul patinaram, porque lá a condição de partida era outra. O maior caso de sucesso de inclusão financeira do mundo é intransferível até para os vizinhos.







